António Livramento: 18 anos de carreira e o regresso a casa para reavivar "futebol de rua"

Entrevistas

António Livramento: 18 anos de carreira e o regresso a casa para reavivar ‘futebol de rua’

António Livramento: 18 anos de carreira e o regresso a casa para reavivar ‘futebol de rua’

Dizem que o bom filho à casa torna e passadas quase três décadas desde que foi convencido a ir treinar ao Ginásio Clube de Tavira com crianças com o dobro da sua idade, António Livramento está de regresso ao clube que o viu nascer para o futebol e de onde o seu coração nunca saiu.

Depois de passagens por equipas como Benfica B, Olhanense, Santa Clara, Boavista, Rio Ave ou Chaves, o atual jogador do Farense prepara-se para abraçar um novo projeto com o lançamento de uma escola de futebol com o seu nome, e promete não ficar por aqui.

Aos 35 anos e com 18 de carreira, o homem que tinha em João Pinto e Rui Costa os ídolos da adolescência sonha ver, já no final desta época, o Estádio de São Luís completamente cheio a festejar o regresso à segunda liga.

Algarve Desporto (AD) – Ainda se lembra dos primeiros toques na bola?

António Livramento (AL) – Os meus primeiros toques na bola foram na rua, com os amigos, com duas pedras de calçada que faziam de baliza. Aqui no Ginásio também me lembro dos primeiros toques mas ainda não podia jogar porque eles faziam dois de mim. Era escolas e já treinava com os iniciados mas não podia competir. Lembro-me como se fosse hoje.

António Livramento: 18 anos de carreira e o regresso a casa para reavivar "futebol de rua"

António Livramento tinha 7 anos quando começou a treinar no Ginásio Clube de Tavira

AD – Como é que começou a aventura mais a sério no futebol?

AL – Tudo começou no Ginásio. Nunca quis sair daqui. Sempre disse para mim próprio e comentei com os meus amigos que se tivesse de dar jogador, quando saísse daqui iria para um grande clube. E fui. Infelizmente não me mantive por lá por questões alheias a mim. Mas acredito que quando há talento, quer se jogue no distrital ou no nacional, vai-se lá parar. Não é preciso começar desde pequenino num clube grande. Pode-se começar num clube pequeno e chegar lá com crença e talento.

AD – O que é que significa para si o Ginásio Clube de Tavira?

AL – O Ginásio foi o clube que me deu tudo e por isso estou feliz por estar aqui hoje. Foi aqui que fui formado, desde miúdo, e terão a minha ajuda em tudo o que precisarem.

Posso dizer que no ano em que fui para o Benfica foram eles que me ajudaram e me deram a estabilidade necessária para continuar a jogar futebol.

A direção aturava as minhas birras quando era novinho. Desde o treinador – o professor Leonardo-, que me ajudou muito, ao diretor Manuel Revez. Não faziam o que eu queria mas aturavam certas coisas que hoje em dia se calhar ninguém aturaria. Tenho também de agradecer ao treinador Rogério Soares, que me lançou no futebol sénior.

AD – Quem foi a primeira pessoa a acreditar no seu potencial?

AL – Foi o Manuel Revez, até mesmo antes de cá ter chegado. O Manuel, que é meu amigo pessoal, chateava-me a cabeça lá no bairro: «Vai jogar para o Ginásio!». E eu dizia que ainda era pequenino. Mas fui. Era escolinha e na altura o Ginásio só tinha escalões a partir de iniciados. Eles tinham 14 anos e eu tinha 7 mas continuava, andava aqui com os calções a arrojar pelo chão.

Quando fui para o Benfica o Manuel Revez também foi uma das pessoas que acreditou no meu valor e estou-lhe muito agradecido por isso. É um amigo especial e ainda hoje falamos muito de futebol.

AD – Quem era o seu ídolo na adolescência?

AL – O João Pinto. Adorava jogar com o número 8, jogava na posição dele e quando chutava a bola dizia que era ele, naquelas brincadeiras de miúdo.

À medida que fui crescendo, e porque comecei a posicionar-me de outra maneira  dentro de campo, também fui admirando a maneira de jogar do Rui Costa.

AD – O que é que destaca dos seus primeiros anos de carreira?

AL – Em pouco tempo muita coisa mudou. Saí daqui do distrital, era júnior, e fui para a equipa B do Benfica, que já era um clube muito grande. Foi uma diferença abismal a nível de treinos e de intensidade. No Ginásio treinava três vezes por semana e jogava ao sábado. No Benfica fazia treinos bidiários.

Para mim não fazia sentido nenhum jogar no domingo e treinar no sábado «para soltar», como dizia o meu amigo Vítor Madeira. Eu tinha de ter um dia de descanso para jogar ao domingo. Hoje em dia se eu disser isto a alguém as pessoas riem-se porque a realidade é que somos profissionais e temos de treinar todos os dias, ainda que, por vezes, em baixa intensidade.

Foi uma mudança para uma realidade totalmente diferente. Na altura, quando foi colocada a possibilidade de ir para a equipa principal do Benfica fazer a pré-época fez-me confusão e disse que não queria, porque só estava habituado a vê-los na televisão. «A equipa B está bom», dizia eu, e era júnior. Acabei por não fazer a pré-época mas por causa de umas burocracias com o clube e permaneci na equipa B.

AD – Como disse, esteve na equipa B do Benfica por empréstimo do Ginásio Clube de Tavira mas não houve acordo para continuar, quando até se chegou a falar na ativação da opção de compra por parte do clube da capital. O que falhou?

AD – Ficou essa mágoa de ter estado tão perto de assinar pelo Benfica e não o ter feito?

AL – Talvez guarde mágoa às pessoas da direção do Ginásio que na altura puseram um entrave à minha saída. Não ao clube. O clube fica, as pessoas passam, e as pessoas que me fizeram isso – e já não estão cá – acharam que podiam ganhar muito dinheiro mas se calhar enganaram-se. Se tivessem feito uma cláusula com uma percentagem de uma futura venda talvez viessem a ganhar muito mais dinheiro do que o que iriam ganhar no momento, mas são pessoas que nunca tiveram ligadas ao futebol profissional e não têm noção disso.

No entanto não choro sobre o leite derramado. Fiquei triste por não ter ficado mas tive força para me levantar depois.

Não fiz a carreira que eu queria mas também não foi assim tão má quanto isso. Joguei quase sempre na primeira divisão e ganhei alguns títulos.

AD – Que balanço geral faz do início da sua carreira até hoje?

AL – A minha carreira foi feita de altos e baixos. Muita gente diz que tomei más opções. No entanto a única opção que ainda hoje digo que não devia ter tomado foi a de não ter renovado contrato com o Rio Ave.

Subimos e eu fazia parte do núcleo duro do clube na primeira divisão. O presidente chegou ao pé de mim para renovar por mais três anos e eu não quis porque tinha um atrito com o treinador Carlos Brito. Não queria ficar no clube para não ser titular.

AD – Aos 35 anos renovou por mais uma época com o Farense. Por quanto mais tempo pensa continuar no ativo?

AL – Gostava de fazer 20 anos de carreira mas penso de ano a ano. Neste momento estou focado em subir o Farense e no próximo ano não sei o que vou fazer à minha vida. Física e psicologicamente sinto-me bem mas têm aparecido vários projetos aliciantes para outras funções que não a de jogador.

AD – Qual considera ser a altura certa para deixar os relvados?

AL – Por mim deixava os relvados aos 50 anos, mas só como jogador. O mister Fernando Chalana é que me dizia que se pudesse jogava até aos 50. Infelizmente as coisas não são assim, chegamos a uma altura em que se tem experiência mas se vai perdendo o físico. Mas acredito que seja daqui a mais um aninho, dois, três… depende. Em junho vou decidir.

AD – Como é que seria o seu último jogo de sonho?

AL – Neste momento seria festejar a subida de divisão do Farense no Estádio de São Luís repleto de gente. Vejo ‘n’ imagens de quando o Farense subiu da segunda B para a segunda liga e o estádio estava cheio. Ainda hoje fico impressionado com a quantidade de pessoas que estavam naquele estádio com o clube na segunda B. Isso não se vê nem em clubes de primeira liga quanto mais em clubes de segunda B ou de segunda liga.

AD – Ou seja, não põe de parte terminar a carreira no Farense?

AL – Não ponho de maneira alguma.

AD – Para além de ter representado vários clubes portugueses, passou também pelos campeonatos da Bulgária e de Gibraltar. Fale-nos um pouco sobre essa experiência.

AL – O campeonato da Bulgária no início foi estranho para mim. Tem duas pré-épocas, para em janeiro e para em junho. É um campeonato muito forte, muito agressivo, e os jogadores de técnica que chegam lá fazem a diferença porque há poucos.

Por exemplo, quando o treinador mandava os jogadores correrem à volta do campo, e se ficassem por uma hora, os búlgaros não diziam nada. O jogador português já é diferente: «Mas porque é que vou dar duas voltas? Porque é que vou dar três? Quantas voltas são?». Os búlgaros não. Caladinhos. Correm e não dizem nada a ninguém. Fisicamente são demais. Depois falta-lhes técnica, há mais jogadores de choque e de força.

Em termos de títulos consegui ganhar uma Taça da Bulgária, no Beroe, e em Gibraltar jogámos a pré-eliminatória da Liga dos Campeões contra o Celtic, para além de ter ganho a supertaça, a taça e o campeonato.

Muita gente desvaloriza e diz que o Lincoln já tinha ganho 14 ou 15 anos seguidos. Tudo bem, ganhou, e eu ganhei mais um ano mas eles este ano não ganharam nada. Perderam tudo. Perderam a taça, a supertaça e o campeonato. Porque é que no meu ano teria sido mais fácil?

António Livramento: 18 anos de carreira e o regresso a casa para reavivar "futebol de rua"

Natural de Tavira, António Livramento é um homem feliz por poder ajudar o clube que o formou

AD – Considera que foi mais valorizado em Portugal ou no estrangeiro?

AL – Quando fui para a Bulgária dizia várias vezes que devia ter ido mais cedo, com 25 anos. Na altura tinha alguns clubes interessados mas tinha medo de arriscar e de emigrar. Mas assim que tive nova oportunidade fui para a Bulgária só mesmo para dar continuidade à minha carreira por mais anos.

AD – Qual é o melhor e o pior lado do futebol?

AL – O melhor lado do futebol são os jogos, sem dúvida alguma. Em contrapartida há muita gente que vai ao estádio e diz «epá mas o jogador falhou o cruzamento; porque é que não joga o outro?». Esquecem-se que durante a semana existem treinos, existe intensidade, existe sacrifício e há jogadores que não gostam de treinar e querem jogar.

Para mim um dos piores lados do futebol é esse, o facto de os adeptos baterem palmas quando as coisas estão bem e criticarem muito quando estão mal. As lesões também são horríveis. Graças a Deus nunca estive muito tempo lesionado mas já vi colegas terem de acabar a carreira por causa das lesões.

AD – Qual foi o melhor e o pior momento da sua carreira?

AL – Melhores momentos tive vários. Um deles foi jogar a Liga dos Campeões. O pior momento foi quando tive de ir embora do Benfica. A época já tinha começado e o diretor chegou ao pé de mim e disse: «Livramento, tenho de te dar esta notícia. Vais ter de te ir embora porque o Ginásio não te vai deixar ficar cá».

Muita gente diz que me vim embora porque quis. Dizem que quis vir para o Farense, para perto de casa, o que é mentira. Eu vim-me embora porque fui obrigado, porque a direção não chegou a acordo e custou-me imenso essa situação. Foi o pior momento da minha carreira. Tive de vir para baixo e começar tudo de novo outra vez.

AD – Ao longo destes anos de carreira tem com certeza histórias caricatas para contar. Quer partilhar alguma connosco?

AL – Na Bulgária, quando jogava no Slavia Sofia e fomos jogar um dérbi contra o Levski Sofia na última jornada, lembro-me de que eles só precisavam de uma vitória para serem campeões e o Ludogorets – para mim a melhor equipa búlgara – fez-nos uma oferta de prémio para nós lhes ganharmos ou empatarmos. Foi engraçado porque o estádio estava cheio, com tudo preparado para a festa deles e nós empatámos o jogo. Os momentos seguintes é que foram muito complicados porque tivemos de ficar no balneário cerca de duas ou três horas porque os adeptos queriam bater-nos.

AD – De todos os clubes por onde passou qual foi aquele onde mais gostou de jogar?

AL – Onde fui mais feliz foi no Rio Ave. Fui para lá a meio da época e acabámos por subir de divisão e mexer um bocado com a cidade de Vila do Conde. Nesse primeiro ano de primeira liga foi tudo muito intenso e difícil mas as coisas correram-me bem.

AD – Sente que de alguma forma faltou reconhecimento ao longo destes anos?

AL – Faltou. Sinto que alguns dos treinadores que eu tive acabaram por ir para vários clubes e nunca me levaram, mesmo conhecendo o meu real valor. Eu também fui um bocado culpado, devia ter dado mais continuidade nos clubes onde sabia que estava a trabalhar bem.

O futebol vive de regularidade e se nesse ano de Rio Ave eu tivesse conseguido manter-me por mais uma época, ao mesmo nível, se calhar tinham aparecido outras coisas melhores. Só que eu queria tudo muito rápido.

AD – No mundo do futebol quem seria a melhor pessoa para o descrever como jogador?

AL – O Paulo Sérgio, o João Eusébio, que foi meu treinador e me levou para Chaves, e o Ilian Iliev, são três pessoas que trabalharam comigo e me conhecem bem, tanto a nível pessoal como profissional.

AD – O que é que essas pessoas diriam sobre si?


AD – E sobre essas pessoas, o que é que tem a dizer?

AL – São excelentes profissionais e têm uma excelente qualidade humana, muito acima da média.

AD – Gostava que fosse possível representar o Ginásio Clube de Tavira nesta fase da carreira?

AL – Ainda há pouco tempo disse ao presidente: «Vai ter de criar escalão de séniores para ver se eu jogo mais um aninho aqui no Ginásio para acabar em beleza» (risos).

Mas ele diz que neste momento não há condições para tal e da minha parte também não porque me falta tempo. Não tenho tempo para quase nada neste momento.

AD – No entanto vai lançar a Escola de Futebol António Livramento, no próximo dia 1 de setembro. Fale-nos desse projeto.

AL – Este projeto visa, em grande parte, ajudar o clube onde fui criado. Como já referi o Ginásio deu-me tudo, por isso agora quero ajudá-los e criar-lhes bases e organização para que possam crescer. A escola vai abrir outros horizontes, potenciar outros conhecimentos e trazer novas pessoas.

Aqui há muito talento e acho que, com aquilo que eu sei, posso fazer com que os miúdos evoluam muito.

AD – Há quanto tempo surgiu esta ideia e quais são as suas principais motivações?

AL – Esta ideia surgiu através de um amigo, o Nuno Encarnação, que será professor e coordenador da escola. Nós falamos muito de futebol e comentávamos muitas vezes que o Ginásio precisava de organização e de alguém que percebesse da modalidade.

A ideia acabou mesmo por partir dele, que me disse: «Porque é que não dás a cara e ajudas os miúdos?». Concordei, dou a cara e ajudo os miúdos mas com a condição de o ter ao meu lado.

Quanto ao projeto em si, acho que temos tudo para dar boas condições aos miúdos. Temos campos, material, know-how e excelentes treinadores. Só espero que os miúdos desfrutem disto porque o mais importante é que se divirtam.

Hoje em dia a maioria das crianças parece que joga na playstation. «Passa para a direita, passa para a esquerda». Aquele futebol de rua, aquela qualidade, aqueles miúdos tipo Robinho ou Ronaldinho, de um para um, já não se encontram tanto e nós queremos trazer isso de volta.

AD – Ainda tem sonhos por realizar?

AL – Muitos. Quem sabe se um dia não serei treinador num clube de 1ª divisão.

AD – Já tem formação como treinador?

AL – Tenho o primeiro nível e este ano vou tirar o segundo. Para já é o suficiente para começar este projeto com os miúdos e dar seguimento. Um dia, se for crescendo na minha carreira, vou tirando os níveis que forem necessários.

AD – Portanto continuar ligado ao futebol é uma certeza na sua vida?

AL – O futebol sempre foi a minha vida e nunca me quero desligar disto. Seria muito difícil.


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