Bento Algarvio: A despedida dos ringues e a luta pela elevação do boxe em Portugal

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Bento Algarvio: A despedida dos ringues e a luta pela elevação do boxe em Portugal

Bento Algarvio: A despedida dos ringues e a luta pela elevação do boxe em Portugal

Cento e noventa e oito combates, 158 vitórias, 38 derrotas e dois empates. É este o registo, em combates amadores e profissionais, de Bento Algarvio, considerado um dos melhores pugilistas da história do boxe em Portugal.

Natural de Faro, António João Oliveira Bento começou a competir na modalidade aos 15 anos, tendo perdido os três primeiros combates, todos com o mesmo adversário. A “força da mente”, a “disciplina” e a crença em si mesmo fazem com que continue nos ringues aos 42.

Com 24 cintos conquistados como atleta profissional, o pugilista é o expoente máximo da modalidade na região e prepara-se para lançar escolas de boxe em seu nome, no Algarve e no mundo, com o objetivo de evitar que iniciantes cometam os mesmos erros que diz terem sido cometidos ao longo da sua carreira.

Aos 27 anos de boxe, o campeão mundial júnior, mundial transcontinental, mundial hispânico, europeu e mundial da WBO, WBA e IBF (três das principais entidades reguladoras da modalidade), garante que brevemente irá encostar, de vez, as luvas.

Bento Algarvio: A despedida dos ringues e a luta pela elevação do boxe em Portugal

Bento Algarvio treina diariamente para manter a forma

Algarve Desporto (AD) – O que é que o faz continuar a treinar e a querer combater depois de já ter anunciado várias vezes que considerava retirar-se?

Bento Algarvio (BA) Os exames médicos. A idade não perdoa e as “mocadas” fazem efeito e eu pensava que o resultado dos exames médicos não fosse tão bom como tem sido.

Este ano ainda tenho dois bons convites para combater, por isso decidi aceitá-los antes de me retirar. Um dos combates será na Argentina e o outro na América. A despedida será em Portugal em janeiro de 2018.

AD – Quais são os seus objetivos nesta fase da carreira?

BA Agora tenho de me colocar outra vez na ribalta porque vou lançar as escolas de boxe Bento Algarvio. Um projeto a nível nacional e internacional com uma escola na Argentina, uma em São Paulo, duas no Algarve – em São Brás de Alportel e Olhão – e uma em Ermesinde.

Nas escolas internacionais a minha ideia é fazer um projeto um pouco diferente do normal. Eu crio a escola Bento Algarvio, que ao lado terá, montada pela cidade ou país local, uma cantina, onde todos os miúdos que lá treinarem têm direito a uma refeição por dia.

Ao fim de dois anos – e uma vez que as escolas serão projetos olímpicos de quatro – terei de escolher dois atletas, um em cada categoria, que passarão a treinar duas vezes por dia, para serem pré-olímpicos e poderem participar em combates internacionais. Nessa altura esses atletas passam a ter direito a duas refeições por dia.

Esses miúdos vão-se “matar” uns aos outros para serem os melhores e terem direito a duas refeições, isso é garantido.

A primeira escola será esta [de São Brás de Alportel], a iniciar no fim deste ano ou no início de 2018. A segunda será a de Olhão, que foi onde eu comecei no boxe.

AD – Qual é o principal objetivo que tem com este projeto?

BA A minha intenção com as escolas não é ser treinador, é ocupar-me da carreira dos atletas, porque não quero que lhes aconteça o que me aconteceu a mim. Neste país, e acontece em vários desportos, os atletas são como laranjas; quando já não servem jogam-se fora e vão-se buscar novos. Mas as pessoas não vão para o lixo como as cascas de laranja. Continuam a viver e, muitas vezes, vivem sem poder usufruir daquilo que deram a ganhar aos treinadores, managers e patrocinadores.

AD – Em três palavras, qual é a mensagem que quer passar aos seus alunos nas escolas Bento Algarvio?

BA “Querer é poder”. Digo isto porque já conheci atletas muito bons, mas que às vezes são mandriões e não trabalham o suficiente. Isso no boxe não dá. Têm de querer com muita força e ter noção de que não é fácil. No boxe a gente dá mas também leva e às vezes até levamos com mais força ainda. É preciso treinar a sério. Treinar muito a sério.

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AD – Aos 42 anos que dificuldades é que encontra como atleta?

BA – Há uma grande diferença entre ser atleta aos 42 e aos 32, para não dizer aos 22. A recuperação é muito mais difícil nesta idade. E não se pode parar de treinar. Aos 42 anos basta parar dois/ três dias e o corpo fica logo muito mais difícil de trabalhar. Tenho de saber treinar, comer e descansar muito bem para estar em forma nesta altura da minha vida.

AD – Como é que surgiu o interesse pelo boxe?

BA – Inicialmente não gostava de boxe mas adorava artes marciais. Adorava jeet kune do, que era a arte marcial do Bruce Lee. Vi um filme dele aos 12 anos e fiquei apaixonado, mesmo sem perceber nada de artes marciais.

De boxe não gostava porque sempre foi muito “mal vendido” em Portugal. Era um desporto com uma imagem que na altura considerava muito violenta. Mas hoje entendo bem que o boxe não é um desporto violento, é agressivo, mas tem regras e tudo o que está dentro da regra não é violento. Portanto, se o boxe é um dos desportos com mais agressividade? É. Mas está em oitavo lugar entre os desportos que provoca mais lesões e o futebol está em terceiro…

AD – Foi abandonado pelo seu pai aos quatro anos e acabou por ser retirado à sua mãe biológica pela segurança social na mesma altura. O boxe impediu-o, de alguma forma, de entrar por maus caminhos durante a adolescência?

AD – Considera que a educação que teve o ajudou a construir a carreira que tem hoje?

BA – Sim. Mas o que me ajudou muito mais foi o facto de a vida, desde muito cedo, me obrigar a safar-me.

AD – O que é que mais o apaixona neste desporto?

BA – A disciplina. Eu gosto muito de ser disciplinado e o boxe obriga-me a isso. Eu apanhei uma bebedeira em toda a minha vida, saí à noite meia dúzia de vezes, escolhi muito bem os meus amigos e tudo isso tem a ver com a vida que o boxe me fez levar.

AD – Arrepende-se de não ter feito carreira fora de Portugal?

BA – De certa forma sim. O dinheiro que ganhei podia ter sido 10 vezes mais.

AD – Porque é que o seu percurso não foi nesse sentido?

BA – Simples: porque fui enganado. Tive um manager que me “agarrou” durante muito tempo e isso não permitiu que eu ganhasse ainda mais do que ganhei. Eu vi a árvore e não consegui ver o bosque, estava focado nos combates e não me preocupei com outras coisas que me podiam ter levado mais longe. Mas não guardo mágoa. Costumo dizer que «Deus tem mais para me dar do que todo o mundo para me roubar».

AD – É um homem de fé?

BA – Muita muita fé! Principalmente em mim. Tenho fé naquilo que quero e naquilo que sei que consigo e isso ninguém me tira. Vou até ao fim.

AD – Qual é a sua opinião em relação ao facto de o boxe em Portugal ter um impacto mediático quase nulo comparativamente a países como Estados Unidos da América ou Argentina?

BA – O mediatismo tem a ver com a venda de imagem e hoje em dia a imagem vale muito e cada um pede o que quer. O boxe lá fora funciona com a famosa expressão “show me the money”. Tem tudo a ver com dinheiro e qualquer modalidade só “levanta” quando se torna um negócio. Em Portugal ainda não aconteceu com o boxe mas já acontece com o futebol.

O problema do boxe é que não é bem vendido. Mas eu acredito que quando abrir as minhas escolas e começar a fazer eventos o boxe vai erguer-se em Portugal e vai começar a ser visto como um bom negócio.

AD – O que é que achou, já agora, do combate milionário entre Floyd Mayweather e Conor McGregor?

BA – Obviamente que fiquei chateado quando esse combate foi avante. Primeiro porque o Floyd Mayweather já tinha abandonado o boxe e aceitou um combate com um indivíduo que nem era boxista. Lá está: “show me the money”. Hoje o dinheiro compra até a palavra de um homem.

Em segundo lugar chateou-me este combate porque o McGregor não é do boxe e nós [pugilistas] para chegarmos a um certo nível no boxe temos de passar por vários patamares.

Os boxistas começam por ser amadores e só depois evoluem para a primeira, segunda ou terceira série. E como é que um fulano que não estava inscrito em série alguma vai jogar na primeira série e logo um título contra o campeão dos campeões? Isso foi uma falta de respeito para os atletas.

AD – Qual foi o adversário mais difícil que enfrentou?

BA – Tive alguns… Quando joguei a unificação do título Inter-Continental da WBA, que por acaso se realizou cá, no Casino de Monte Gordo, contra o queniano Athanas Nzau, que na altura tinha 35 anos e eu 30/31, o meu manager disse-me: «o gajo já é velho, já está acabado, ele não chega sequer ao fim do combate». Eu estava em excelente forma física nessa altura e o que é certo é que ao primeiro assalto estava a bater, a bater e ele a responder igualmente. Abriu-me os sobrolhos numa troca de golpes impressionante que durou 12 assaltos. Nesse combate perdi três quilos e meio em 36 minutos. Ao contrário das expectativas o combate foi muito difícil mesmo.

No ano passado também tive um combate muito difícil contra o argentino Miguel Angel Escalada, 15 anos mais novo do que eu. O jogo durou 12 assaltos e eu levei muita porrada e já não tenho idade para isso, tenho de ser mais inteligente. O combate entre o Mayweather e o McGregor veio-me alertar ainda mais para isso: não é o mais forte que ganha, é o mais inteligente. E eu tenho de ser inteligente para dar e não receber.

AD –  E quem é o seu pugilista de eleição?

BA – Eu conheci pessoalmente um “senhor” do boxe, que sempre imitei muito, principalmente no jogo de pernas, o Muhammad Ali, um dos melhores, que infelizmente já morreu.

Também gosto muito do Juan Manuel Marquez, Manny Pacquiao, Roy Jones Jr. e do Rocky Marciano e vou, obviamente, buscar um bocadinho de cada um deles para me inspirar e ter o meu estilo.

AD – Considera-se mais forte física ou mentalmente?

BA – Mentalmente, sem dúvida. Eu comecei a treinar meditação em 91/92, com um grande senhor que se chama Mário da Cruz. Ele é que me ensinou a respirar e a meditar e foi assim que eu percebi que o corpo até pode estar em excelente forma, mas se a mente não acompanhar é para esquecer…

AD – Nunca teve medo de se magoar no boxe?

BA – Não. Nos treinos, a certa altura da minha vida, comecei a preocupar-me com as mazelas, porque o problema não são os combates, são os treinos. Se o atleta for com mazelas dos treinos pode magoar-se seriamente em combate e aí sim, pode até ser fatal.

AD – Tem um palmarés invejável. Qual foi o título que mais gostou de vencer?

BA – O título nacional deu-me muito gozo porque foi contra um indivíduo que dizem que é muito bom mas que não valia nada [Bento Algarvio refere-se a Nuno Cruz, conhecido como o Guerreiro do Norte, com quem disputou o título de campeão nacional a 18 de dezembro de 2009 no Casino de Monte Gordo].

Mas o que me deu mais gozo foi o título europeu porque havia muita gente a dizer que não ia conseguir.

Bento Algarvio: A despedida dos ringues e a luta pela elevação do boxe em Portugal

Bento Algarvio é campeão mundial júnior, mundial transcontinental, mundial hispânico, europeu e mundial da WBO, WBA e IBF

AD – Houve muita gente que não acreditou em si durante estes anos?

BA – Muitos ainda não acreditam. Muitos acham que o que me tem acontecido é sorte e que eu não mereço e não presto…

AD – E este ano será mesmo o último nos ringues?

BA – A primeira vez que pensei em desistir do boxe foi aos 30 anos. Descobri coisas que me perturbaram nos bastidores e fiquei mesmo desanimado. Peguei em mim e fui para a Argentina treinar em escolas com miúdos que não percebiam nada de boxe mas que eram guerreiros, que queriam bater. E foi esse sangue na guelra que me fez voltar ao boxe e voltar a querer vencer.

Há dois anos, aos 40, achei novamente que era a minha altura, mas apareceu-me um contrato abismal na Argentina, que acaba em dezembro, por isso julgo que este ano já será mesmo o último. Tenho um filho com sete anos que precisa de mim e acho que os 42 anos são uma boa idade para parar de combater. Antes do verão de 2018 paro e dedico-me a gerir a carreira de novos atletas.

[Esta entrevista foi realizada nas instalações da Fábrica do Fitness].


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