Amaro Antunes: "Vou levar a bandeira de Portugal sempre no peito"

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Amaro Antunes: “Vou levar a bandeira de Portugal sempre no peito”

Amaro Antunes: “Vou levar a bandeira de Portugal sempre no peito”

Amaro Manuel Antunes já levantava taças e nunca tinha praticado ciclismo. Ainda foi federado em andebol e chegou a ir à Seleção do Algarve mas, “descendente” de ciclistas, nunca teve dúvidas do que queria alcançar e a inscrição no Centro de Ciclismo de Loulé foi o primeiro passo para o sucesso que hoje continua a construir.

O ciclista de Vila Nova de Cacela viveu, aos 26 anos, um 2017 “fenomenal” com a camisola da W52-FC Porto. No início da temporada conquistou o Alto do Malhão na última etapa da Volta ao Algarve, antes de vencer a Clássica da Arrábida e o Troféu Joaquim Agostinho. Foi o segundo classificado da última edição da Volta a Portugal e é líder absoluto do ranking Ciclista do Ano.

Vitórias que despertaram o interesse da equipa polaca CCC Sprandi Polkowice, um dos principais conjuntos do escalão Profissional Continental, que o algarvio se prepara para representar durante os próximos dois anos.

Algarve Desporto (AD) – Antes de mais, como é que se sente numa altura em que está prestes a abraçar um novo desafio na carreira?

Amaro Antunes (AA) – Acima de tudo com muita ilusão. É um passo que já ambicionava e creio que esta é a altura certa, por isso estou muito motivado.

AD – Porque é que escolheu a CCC Sprandi Polkowice em detrimento de outras equipas, nomeadamente algumas do World Tour?

AA – Para ter liberdade. Não escondo que tinha algumas propostas do World Tour mas gosto de ser cauteloso e de dar um passo seguro de cada vez e esta escolha foi feita sobretudo a pensar na minha continuidade e na minha evolução como ciclista. Na CCC Sprandi Polkowice dão-me liberdade e é dessa liberdade que eu preciso para perceber onde posso chegar.

Amaro Antunes: "Vou levar a bandeira de Portugal sempre no peito"

Amaro Antunes deixa a W52-FC Porto para se juntar à CCC Sprandi Polkowice

AD – Os objetivos já estão traçados para esta nova etapa?

AA – Para já ainda estamos em fase de final de temporada. Vou-me reunir com a equipa no dia 17 de outubro e aí será delineado o meu calendário definitivo.

AD – Quais são as expectativas e ambições para a estreia no escalão Profissional Continental?

AA – Acima de tudo quero dar seguimento ao trabalho que tenho vindo a desenvolver ao longo dos anos. Este último ano na W52-FC Porto colhi os frutos desse trabalho e quero que a minha evolução continue porque ainda sou um ciclista jovem. Não vou pôr a fasquia alta, vou sim tentar cumprir tudo aquilo a que me propus e dignificar sempre as cores da equipa e levar a bandeira de Portugal sempre no peito.

AD – De que forma é que esta experiência o pode ajudar a evoluir enquanto ciclista?

AA – Através das novas experiências e das novas competições. Irei certamente deparar-me com outra mentalidade. Será outra língua e tudo isso serão experiências que me vão enriquecer como atleta e como homem.

AD – O ciclismo é um desporto coletivo, ainda que os treinos possam ser individuais. Como é que vai fazer esta gestão, tendo em conta que vai ingressar numa equipa polaca?

AD – Como é que um ciclista de alto nível gere, a nível familiar, as constantes ausências e a carga horária de treinos a que a profissão obriga?

AA – É muito complicado mas felizmente tenho uma mulher que me compreende e que me apoia. Tenho uma filha e sei que perdi parte do crescimento dela por passar bastante tempo fora mas a vida é mesmo assim, é feita destas complicações, mas tendo uma família que nos apoie e que nos dê carinho é meio caminho andado até mesmo para o desempenho físico.

AD – Treina todos os dias?

AA – Sim. Treino os sete dias da semana. Há um dia que considero de repouso mas é um repouso ativo em que faço entre uma e uma hora e meia de bicicleta.

AD – No ciclismo qual é o segredo para ser um atleta de topo?

AA – A chave principal é o treino aliado ao descanso, para além de estarmos tranquilos e treinarmos com empenho. Um treino em que se sofre e em que se dá tudo significa que depois na competição irá custar menos.

AD – Ambição ou humildade. Qual destas características é mais importante para si?

AA – As duas. Ter a humildade e a ambição necessárias para enfrentar uma competição são as chaves principais. Sem ambição não se consegue chegar lá e sem humildade também creio que pouca gente consegue.

AD – Este ano foi particularmente forte no que toca a resultados. Foi o melhor da sua carreira ou já teve outros igualmente bons por outros motivos?

AD – Como é que começou na modalidade?

AA – A minha família é toda ela ligada ao desporto e particularmente ao ciclismo e isso sempre me incentivou. Vivi de perto algumas competições do meu pai e recordo-me que quando ele ia ao pódio, eu, em casa, levantava a taça como ele fazia. Foram pequenos pormenores que me fizeram um dia querer ser ciclista. Chateava o meu pai quase todos os dias a dizer que queria ir para o ciclismo, até que, em 2005, ele me inscreveu no Centro de Ciclismo de Loulé e a partir daí consegui concretizar o sonho de pedalar e felizmente consegui chegar ao profissionalismo.

AD – Nessa altura o sonho era pedalar e ser profissional. Neste momento qual é o seu sonho?

AA – É uma pergunta pertinente. Tenho vários sonhos e alguns deles as pessoas até podem dizer que estão numa fasquia muito elevada, mas não vou esconder que tenho o sonho de participar numa Volta a França, fazer uma corrida de topo mundial e claro, uma das coisas que também gostava, e que tentarei concretizar, é vestir a camisola de campeão nacional. Já aconteceu nas camadas jovens e agora gostava que acontecesse enquanto profissional.

AD – Quem são as suas referências no ciclismo?

AA – Tenho bastante admiração pelo Alberto Contador por tudo o que fez no ciclismo e pela maneira como encarava a modalidade. Nem sempre a forma física dele era a melhor mas era um ciclista que na estrada tinha sempre um espírito de “deixar tudo” e, mesmo estando mal, dava espetáculo, atacava, e isso é o que eu mais admirava nele.

AD – Que balanço faz do seu percurso até se tornar no Amaro Antunes que conhecemos hoje?

AA – Passei por várias fases do ciclismo: desde as camadas jovens aos primeiros anos no profissionalismo e posso dizer que me sinto orgulhoso de tudo aquilo que consegui conquistar ao longo dos anos. Vejo que de ano para ano estou a evoluir bastante e isso é algo que me deixa satisfeito.

AD – Qual é a sua opinião em relação à realidade atual do ciclismo no Algarve?

AA – Creio que já tivemos anos piores. Estamos a conseguir aos poucos com que o ciclismo suba. Eu próprio, a nível de ciclismo de formação, tentei dar o meu contributo através da criação de uma escola de formação para os jovens porque aqui na zona de Vila Nova de Cacela não tínhamos nada ligado às bicicletas.

Além do meu projeto, aqui no Algarve temos duas boas equipas profissionais e o que espero é que tenhamos cada vez mais e, num futuro breve, que surja uma equipa Pro Continental.

AD – Como é que surgiu a iniciativa de criar as Escolas de Ciclismo Amaro Antunes?

AA – É algo que sempre ambicionei porque me recordo de ser miúdo e querer ser ciclista e de ter de me deslocar até Loulé, que é uma distância considerável. Querer dar a oportunidade aos mais jovens de começar a pedalar mais cedo foi a grande razão para a criação deste projeto. Juntei o útil ao agradável porque o facto de eu estar no ativo e ser um ciclista jovem acaba por motivar os mais pequenos.

A acompanhar-me neste projeto estão o Ricardo Mestre e o Samuel Caldeira e juntos podemos ser uma referência para os miúdos. O nosso objetivo é transmitir a nossa experiência e ajudar os jovens a um dia serem como nós, ou melhores.

Amaro Antunes: "Vou levar a bandeira de Portugal sempre no peito"

Valério Chaveta, diretor desportivo do CC Amaro Antunes e Amaro Antunes

AD – Como é que tem sido a adesão?

AA – Tem sido bastante boa e isso deixa-nos felizes e motivados. Temos cerca de 14 atletas e conseguimos 15 bicicletas e a nossa ideia é que os atletas que venham para a nossa escola tenham logo a bicicleta disponível, por isso, para já, também não queremos alargar muito o leque de atletas.

AD – Que perspetivas faz para o futuro deste projeto?

AA – Vou fazer as mesmas que faço para mim: é ir passo a passo e talvez daqui a dois ou três anos ter uma equipa de juniores. Para já o foco é construir uma base sólida. Tentaremos ir subindo as categorias e as camadas jovens consoante a evolução deles, mas como é óbvio é um projeto que ambiciona ir subindo degrau a degrau para que um dia, quem sabe, possamos ter uma equipa profissional.


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