Ana Cachola: Entre o judo e a medicina, a receita é "respeitar o próximo"

Entrevistas

Ana Cachola: Entre o judo e a medicina, a receita é “respeitar o próximo”

Ana Cachola: Entre o judo e a medicina, a receita é “respeitar o próximo”

Ana Cachola começou a praticar judo com meia dúzia de anos. Os suficientes para perceber que aquela modalidade lhe dava o que todas as outras que praticou, e que viria a praticar (e que não foram poucas), não conseguiriam. Desde então, representou o Judo Clube do Algarve, durante 17 anos, passando depois por Sporting CP e Vitória FC.

Vinte vezes campeã nacional, em todos os escalões etários, campeã europeia de juniores e bicampeã europeia de sub-23 foram “só” alguns dos títulos conquistados ao longo de uma carreira conciliada entre os estudos de medicina e a família e recentemente premiada pela Federação Portuguesa de Judo.

Aos 30 anos, a multimedalhada em provas internacionais está de regresso à cidade natal, onde fundou, juntamente com Tiago Lopes, em setembro último, a Academia de Judo de Faro, que já forma cerca de 80 atletas.

Algarve Desporto (AD) – Receber o ‘Prémio Carreira’ pela Federação Portuguesa de Judo significou o quê para si?

Ana Cachola (AC) – Foi o reconhecimento de todo o trabalho que fiz nestes anos todos e foi também o fechar de um ciclo grande da minha vida, mais ou menos 25 anos. Nós, atletas de alta competição, dedicamos a nossa vida a isto e abdicamos de tudo e mais alguma coisa, por isso foi muito bom a Federação ter reconhecido o meu trabalho e o meu valor.

AD – Entre tantos títulos, combates e medalhas, consegue destacar um momento que tenha sido particularmente importante?

AC – Um só é muito difícil. Por exemplo, conquistei três medalhas [de ouro] no Campeonato da Europa e todas elas tiveram a sua importância. Foram os melhores resultados que conquistei durante a minha carreira.

Depois houve também momentos em que não consegui ganhar mas consegui fazer boas prestações. Por exemplo, quando fui a Baku, tinha decidido que ia parar o judo e me ia dedicar só à medicina. Fui àquela prova [I Jogos Europeus em 2015] porque tinha mínimos, tinha alcançado o que era necessário para ir, e de repente estava a disputar as medalhas [Ana Cachola perdeu com a israelita Yarden Gerbi num dos combates para a atribuição da medalha de bronze em -63Kg], para mim foi espetacular, não estava à espera daquilo. Portanto existiram imensos resultados importantes para mim.

Ana Cachola: Entre o judo e a medicina, a receita é "respeitar o próximo"

Ana Cachola mudou-se para o Sporting CP em 2011

AD – Como é que se iniciou no judo?

AC – Comecei no judo com 6 anos. A minha mãe era treinadora de natação e uma das alunas dela era uma atleta de judo aqui da região, com grandes resultados também, que estava sempre a brincar comigo, a fazer-me projeções, e eu achava aquilo engraçado. Ela dizia muitas vezes: “tens de vir para o judo”. E eu fui, experimentei, e a partir daí nunca mais deixei.

AD – O judo foi a primeira modalidade que experimentou?

AC – Não. Fiz de tudo: futebol, andebol, basquetebol, voleibol, ténis de mesa, futsal, natação…

AD – O que é que encontrou no judo que não encontrou nas outras modalidades?

AC – O judo tem a particularidade de ser individual, depende de mim e não dos outros, e é um desporto sempre diferente, não é monótono. Para mim correr ou nadar é sempre a mesma coisa. Apesar de haver competitividade… Já no judo é sempre tudo diferente porque nós temos que, de acordo com o adversário, ir à procura de uma estratégia para o vencer e isso é muito desafiante.

AD – Depois de tantos anos de judo continua a aprender?

AC – Sempre. Todos os dias. Porque, lá está, todas as pessoas são diferentes e nenhum combate ou treino são iguais.

AD – Durante vários anos conciliou os estudos de medicina com o judo e continuou a ganhar títulos. Como é que fez essa gestão?

AD – Nessa altura sentiu que, de certa forma, praticar judo a ajudou no plano académico?

AC – Sem dúvida. O judo foi das coisas mais importantes na minha vida. Eu era super desconcentrada. Para mim estar sentada a estudar era um martírio e o judo ajudou-me bastante a focar-me nos objetivos, a conseguir organizar-me e estar mais tempo concentrada. E também sabia que se não tivesse sucesso na escola podia ter que deixar o judo, pelos meus pais ou até porque eu própria não me sentia bem com isso, e então o judo foi fundamental. Permitiu-me também entrar em medicina através do estatuto do atleta de alta competição. Se tivesse sido de outra maneira nunca teria entrado no curso e permite-me hoje estar a trabalhar naquilo que eu gosto: sou médica de família. Sem o judo acho que nunca teria conseguido alcançar esse objetivo.

AD – Qual foi o maior ensinamento que esta modalidade já lhe passou?

AC – O judo ensina-nos a respeitar o próximo, a ter coragem de enfrentar os nossos medos – e eu tinha alguns -, mas acho que fundamentalmente ensina-nos a ter compaixão e empatia pelos outros.

O judo dá-nos experiências que não dá para ter em todas as modalidades porque existe muito contacto e nós acabamos por aprender a respeitar os outros em termos do toque, perdemos o medo de nos aproximarmos de pessoas desconhecidas e há uma interação muito gira.

AD – Como é que foi a ida para Lisboa e para o Sporting em 2011?

AC – Eu não mudei logo de clube assim que fui para Lisboa. Eu fui para Lisboa com 17 anos para estudar e ainda continuei a representar o Judo Clube do Algarve durante seis anos. Só mais tarde é que decidi mudar-me para o Sporting. Mudei-me porque quando estava em Lisboa sentia que não pertencia a nada. Ia treinar a clubes dos quais eu não fazia parte, era uma estranha que ia lá fazer judo de vez em quando. Então ganhei coragem ao fim desses anos todos e deixei de representar o clube onde comecei, e onde queria ter acabado a minha carreira, e tive de me mudar e adaptar-me. Para conseguir alcançar resultados tinha de tomar essa decisão.

AD – Que principais diferenças é que sentiu, relativamente à modalidade, no Algarve e em Lisboa?

AC – O judo não está muito desenvolvido na região do Algarve e a competitividade e o nível que existem aqui não correspondem, nem ao nível que existe em Lisboa, e muito menos ao nível do judo internacional. Na altura em que estava em Faro existia um grupo de judocas muito bons e uma equipa grande que dava para ter uma boa qualidade de trabalho. Mas quando comecei a ser júnior e sénior já se notava uma grande discrepância e tive que me adaptar, fui para Lisboa e procurei o melhor para mim.

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Tiago Lopes e Ana Cachola

AD – Três anos depois de se juntar ao Sporting passa para o Vitória de Setúbal. Quais foram as motivações?

AC – A motivação principal foi o Tiago, que é também o meu marido, ter sido convidado para treinar o Vitória de Setúbal, e aí optámos por começar um projeto novo no clube. Nessa altura também me comprometi, com a ajuda dele, a iniciar um novo ciclo olímpico e acho que o Tiago, mais do que qualquer outra pessoa, é extremamente competente e tinha aquilo que eu precisava, em conjunto com a Inês Vigário, psicóloga que trabalhava connosco.

Outra das motivações foi ter encontrado no Vitória um clube familiar, que era mais parecido com o que tinha cá, para além de me dar uma boa qualidade de treino, que me permitiu alcançar os resultados que procurava.

AD – De volta ao Algarve quais foram as principais diferenças que encontrou na modalidade?

AC – Voltei em abril deste ano para o Algarve e o meu objetivo era voltar ao clube onde comecei mas entretanto houve um desentendimento com o treinador desse clube e tivemos que começar um projeto novo. As dificuldades que encontro no Algarve são precisamente as mesmas. Infelizmente estive fora 13 anos e está tudo na mesma ou pior. É muito triste do ponto de vista desportivo. Não se adaptaram, não quiseram procurar melhor e nós na Academia de Judo de Faro vamos querer tudo isso, vamos querer dinamizar a modalidade da maneira que achamos que é mais correta, para que estes miúdos tenham contacto com o judo que se pratica a nível nacional e internacional e esperamos que no futuro qualquer um deles tenha resultados iguais ou bem melhores que os meus.

AD – Então os objetivos, com a criação deste projeto, também passam por tentar mudar esse panorama que retrata?

AC – Sim. Gostaríamos de elevar um pouco o nível e oferecer-lhes outro tipo de condições que não só o vir aqui fazer judo e esperar que algum miúdo mais talentoso consiga sobressair no meio de todos os outros. Queremos ter um grupo coeso.

AD – Quais são as perspetivas para o futuro da Academia?

AC – Abrimos em setembro, somos muito recentes, o nosso objetivo para final de dezembro era chegar aos 85 atletas e já alcançámos esse número. Não podemos, se calhar, ter muitos mais, mas a ideia é que quantos mais miúdos se quiserem juntar ao nosso projeto e à nossa Academia, melhor, mas neste momento o que temos já é muito bom.

AD – E em relação à Ana ‘judoca’, como é que vai ser a sua carreira daqui para a frente?

AD – Ainda é jovem mas o meio desportivo cria preconceitos relativamente à idade. Como é que lida com isso?

AC – Acho que a idade está na cabeça das pessoas. Nós é que sentimos o feedback que o nosso corpo nos dá. Neste momento sinto-me melhor do que quando tinha 20 anos, porque estava cheia de lesões, não tinha ninguém que me ajudasse a fazer prevenção de lesões nem treino de estabilidade articular, nem sabia perder peso e neste momento o judo a nível mundial deu um salto muito grande e o acompanhamento dos atletas é muito mais profissional e é o que permite ter maior longevidade.

Em relação a mim sinto-me bem e depois de ser mãe ainda me sinto melhor e até acho que o preconceito está a diluir-se um bocadinho porque antigamente as pessoas acabavam a carreira aos 26 anos e neste momento há pessoas a fazer judo com 40 e estão ótimas.

AD – O judo trouxe-lhe valores, títulos, uma Academia, mas também lhe trouxe o amor…

AD – Ter no Tiago alguém que compreenda o que é ser atleta de alta competição ajudou a que conseguisse ter sucesso?

AC – Sem dúvida nenhuma. Ser atleta de alta competição faz com que tenhamos de abdicar de muitas coisas, não há todo o tempo do mundo para amigos, saídas à noite, festas ou férias… As férias então quase nem existiram porque nessa altura é quando treinamos mais. Eu acredito que deva ser muito difícil manter uma relação com alguém fora deste meio porque não compreende. O facto de ele estar comigo foi muito bom porque partilhámos sempre os mesmos interesses, os mesmos objetivos.


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