Luís Costa: "Uma deficiência física não faz de nós uns coitadinhos"

Entrevistas

Luís Costa: “Uma deficiência física não faz de nós uns coitadinhos”

Luís Costa: “Uma deficiência física não faz de nós uns coitadinhos”

Luís Costa sempre foi um amante de desporto. Nem a perda da parte inferior da perna direita na sequência de um acidente de viação, no dia em que completou 30 anos, o impediu de estar no ginásio, ainda com um colete cervical, no dia seguinte a ter saído do hospital.

A partir daí trocou os 10 quilómetros que corria todos os dias de manhã pelas máquinas de musculação, até ao dia em que, passada uma década, se iniciou no paraciclismo. Do lazer ao orgulho de representar Portugal nos Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro 2016 foram três anos, com a influência do antigo piloto Alessandro Zanardi à mistura.

Natural de Castro Verde e com uma juventude vivida na zona de Aljustrel, é algarvio que se considera quando, aos 44, já reside há 15 anos em Portimão, onde trabalha como inspetor da Polícia Judiciária.

O atleta do Sporting/Tavira-Paracycling, campeão nacional por 11 vezes e top 3 do ranking mundial aponta agora ao título de campeão do mundo e aos próximos Jogos Paralímpicos.

Algarve Desporto (AD) – Como é que não gosta de ser tratado?

Luís Costa (LC) – Não gosto de ser tratado como um coitadinho. Não gosto daquela imagem do deficiente, no termo negativo. Uma deficiência física é uma alteração na nossa fisionomia, não faz de nós uns coitadinhos. E tratarem dessa forma atletas ainda me irrita mais e até acho que isso é um grande obstáculo ao desenvolvimento do desporto adaptado. As pessoas não podem continuar a ter pena dos atletas. Somos atletas e não “atletas deficientes”.

AD – Incomoda-o que, muitas vezes, os atletas deficientes sejam mais valorizados por terem uma deficiência e não tanto pelo que fazem?

LC – Sim. Incomoda-me mesmo muito… temos mais valor porque “coitado, mesmo assim conseguiu”. E não é assim. Nós competimos com atletas com o mesmo grau de deficiência e é à performance desportiva que temos de dar valor.

AD – De que forma é que considera que essa realidade pode ser alterada?

LC – É uma questão de divulgação. Muitas vezes o facto de as pessoas terem pena não é por mal, é por falta de conhecimento.

Luís Costa: "Uma deficiência física não faz de nós uns coitadinhos"

Luís Costa

AD – O Luís não é deficiente desde que se conhece e vem de um meio onde é preciso ser “duro”. Como é que foi gerir o seu lado prático e forte com uma condição que à partida seria muito debilitante?

LC – Considero que a preparação que tinha, a minha experiência de vida, o facto de ter passado pelo serviço militar e sempre ter feito desporto, deram-me a capacidade de encarar as dificuldades de peito aberto.

O pensamento foi: “Isto está aqui mas eu vou enfrentar!”. Não me acomodei.

Uma situação destas certamente será mais difícil para pessoas que não sabem o que é “sofrer”, num bom sentido, ultrapassarmo-nos através do desporto. Quem faz desporto a um nível extremo sabe que há um ponto de sofrimento extremo mas que é possível de ultrapassar de forma a sermos cada vez melhores. Isso ajudou-me, sinceramente.

Por exemplo, este desporto [ciclismo adaptado], tal como o ciclismo dito normal, são desportos de extrema dificuldade e é nas alturas mais complicadas que o que temos por trás pode ser uma mais-valia.

AD – Ser forçado a aprender a lidar com toda esta realidade fê-lo tornar-se ainda mais forte?

LC – Sem dúvida. É claro que nos primeiros dias a seguir ao acidente pensei – precisamente por sempre ter feito desporto e de gostar tanto ao ponto de fazer, por lazer, 10 quilómetros todos os dias de manhã – “não vou poder fazer nada disto. As pessoas vão olhar para mim como alguém que não consegue fazer nada”. Mas rapidamente percebi que mesmo só com uma perna conseguia fazer desporto.

AD – Pode dizer-se que foi o desporto que não o deixou ir-se a baixo?

LC – Sem dúvida. Se me tivesse acomodado a ficar em casa a ver televisão, em vez de no dia a seguir a sair do hospital ter ido para o ginásio, hoje seria realmente um coitadinho.

AD – O que é que sabia sobre paraciclismo e sobre a sua classe (H5) quando pensou em praticar a modalidade?

LC – Não sabia quase nada. Fui completamente às cegas. Quando me iniciei no paraciclismo não existia médico classificador e até comecei a competir na classe errada. O paraciclismo era muito embrionário, havia poucos atletas e pouco conhecimento sobre tudo o que envolve a modalidade.

Na altura só existiam quatro classes nas handbikes, da H1 até à H4, agora existe H5, e eu comecei na H3, que é onde correm os atletas que vão deitados, por norma os paraplégicos. Ou seja, eu estava mal classificado e como não havia conhecimento pensava que a handbike podia ser qualquer uma. Hoje em dia a primeira coisa que digo a quem se está a iniciar é para ir a um médico para ser classificado e saber qual é a sua classe.

Quando fui pela primeira vez à Taça do Mundo disseram-me logo que estava na classe errada. Foi nessa altura que, de um momento para o outro, como tinha de arranjar uma handbike de joelhos depois de ter acabado de comprar uma inclinada, se iniciou uma grande onda de solidariedade depois de recorrer ao Facebook e pedir ajuda para adquirir a handbike. Não tinha grandes resultados para apresentar, mal tinha começado mas tinha sido campeão nacional e fiz um 6º lugar na Taça do Mundo e o meu argumento foi: “Vejam lá, fiz isto com esta bicicleta que não é adequada, se calhar se me ajudarem isto pode tornar-se algo interessante”. E no espaço de 22 dias apareceram os nove mil euros necessários para a handbike e acho que tenho justificado a crença que as pessoas tiveram em mim.

AD – A posição em que compete é incómoda?

AD – Começou a competir em março de 2013 e três meses depois já estava na Taça do Mundo e a concorrer com Alessandro Zanardi, que serviu de inspiração para si. Para além disso, desde muito cedo começou a conquistar títulos e a representar Portugal. Como é que reagiu a essa rápida ascenção?

LC – Isto teve tudo a ver com força de vontade. Primeiro comecei na modalidade só por lazer, pensei que me podia divertir e fazer um desporto diferente. Mas a minha mulher disse que não podia ser assim. “Estamos em 2013, em 2016 há os Jogos Paralímpicos no Rio de Janeiro, faz o favor de ir treinar a sério para ires ao Jogos”, foi o que ela me disse. À partida pensei que isso seria impossível, mas na altura comecei também a ver o Zanardi nos Jogos Paralímpicos em Londres e como ele também é amputado informei-me e quando comecei a competir pensei: “Se calhar até consigo qualquer coisa”.

Logo na Taça do Mundo, ainda em 2013, percebi que com a handbike adequada tinha condições para lutar pela qualificação e a verdade é que ao fim de apenas uma semana a treinar com a handbike de joelhos fui fazer a minha primeira prova em Barcelona, uma prova do Circuito Europeu, e fiz logo um bronze e uma prata.

Em 2014, já com uma orientação diferente e muitos mais treinos, a Federação Portuguesa de Ciclismo começou a ver que tinha matéria-prima e queriam começar a levar-me a Taças do Mundo, ao Campeonato do Mundo, e consideraram a possibilidade de lutar para a vaga portuguesa para os Jogos Paralímpicos. E assim foi, naquele ano conseguimos logo garantir a primeira vaga para Portugal a nível de paraciclismo.

AD – Que balanço faz desta última época?

AD – Quais é que são os seus principais objetivos na modalidade?

LC – Neste momento quero progredir ainda mais e quero colocar-me numa posição em que possa disputar o título mundial. Se não for em 2018, será em 2019, ou em 2020. Quero chegar às provas e ser, nitidamente, um candidato à vitória. Neste momento sou um candidato às medalhas, mas quero ultrapassar esse nível até porque penso que é a forma justa de retribuir a aposta que o meu clube, a Federação, o Comité Paralímpico de Portugal, a minha família, os meus amigos e os meus patrocinadores fazem em mim.

AD – Como é que se prepara uma grande competição?

LC – Na minha classe tenho a vantagem de conhecer todos os adversários. Compito numa classe com poucos atletas, talvez por sermos amputados existe um vasto leque de desportos adaptados que se podem praticar e isso faz com que estejamos dispersos em várias áreas.

O facto de ir a muitas provas internacionais dá-me um grande background e por isso hoje em dia estudo mais o percurso do que os atletas.

Treina todos os dias?

AD – O Algarve tem as condições necessárias para a preparação de um paraciclista?

LC – Eu penso que o Algarve tem das melhores condições do mundo para o paraciclismo e para o ciclismo em geral. Não é por acaso que temos, durante todo o ano, equipas profissionais aqui a treinar. Temos este sol magnífico, a temperatura é amena para quem, neste momento, vive na Holanda, na Alemanha ou na Bélgica e tem de fazer estágios a tremer de frio. As estradas são relativamente boas, não temos muito trânsito e há o mínimo de respeito pelos ciclistas, por isso acho que aqui é o local ideal para praticar ciclismo e ciclismo adaptado.

AD – Está nos seus planos profissionalizar-se e deixar a Polícia Judiciária?

LC – Estaria nos meus planos se existissem condições para isso mas infelizmente não há. É claro que todos os atletas que estão no projeto paralímpico têm essa ambição e o próprio Comité Paralímpico também a tem. O problema é que para isso têm de nos dar condições monetárias de subsistência. Um atleta não vai conseguir sobreviver, e participar em competições ao mesmo tempo, com 300, 400 ou 500 euros por mês.

Se existissem condições como, por exemplo, em Espanha, onde os atletas olímpicos e paralímpicos têm a mesma bolsa seria possível. Se um atleta em Portugal tivesse aquela bolsa de 1.375 euros por mês seria aceitável para alguém se dedicar a isto. E podem ter a certeza de que se os atletas paralímpicos portugueses tivessem mais condições os resultados iam ser fenomenais.

Luís Costa: "Uma deficiência física não faz de nós uns coitadinhos"

Luís Costa tem contrato com o Sporting/Tavira-Paracycling até 2020

AD – Até que idade tenciona competir?

LC – Isso é uma incógnita, por mim até aos 80 ou 90 anos. Vejo um bom exemplo no Johan Reekers, um atleta excecional, que “me tirou” debaixo das barbas a medalha de bronze no Campeonato do Mundo. É o atleta que mais respeito, tem 60 anos, não é brincadeira… Foi a nove Jogos Paralímpicos, passou por várias modalidades, fez atletismo, voleibol adaptado e finalmente paraciclismo. É atleta na verdadeira conceção da palavra, nunca fez mais nada na vida.

A média de idades no paraciclismo também é elevada, anda à volta dos 30 anos. Normalmente vamos para o paraciclismo depois de termos um acidente de viação, portanto a maior parte são pessoas maiores de idade, que já têm carta de condução… Por isso um paraciclista com 30 anos ainda é muito jovem e eu ainda só tenho 44. A Tóquio vou de certeza, já com 47 anos. A seguir temos Paris, em que terei 51 anos mas penso que é perfeitamente possível que lá vá. Daí para a frente vamos ver, depende das condições que tiver porque isto também começa a ser saturante. Tenho de deixar a família e os amigos para segundo plano e há-de chegar a altura em que tenho de compensar estas pessoas pelo tempo que não lhes tenho dado agora. Mas enquanto puder fazer isto ao mais alto nível vou fazer de certeza.

AD – A família é uma das principais fontes de motivação?

Em que patamar está Portugal no que toca ao desporto adaptado?

LC – Está a progredir se virmos como desporto adaptado o leque de modalidades diferentes que temos atualmente.

A nível de atletismo penso que está muito bem, já no ciclismo ainda há muito trabalho a fazer. Eu esforço-me para que o ciclismo adaptado cresça mas há falta de atletas, em parte porque o preço do material é desmotivante. Uma handbike para competir é muito cara, nunca menos do que uns 4.500 euros, e isso faz com que muita gente desista da ideia à partida. É preciso compreender que quem pondera esta modalidade tem uma deficiência, possivelmente nem está a trabalhar, está a viver de rendimentos ou de ajuda familiar e ouve falar em cinco mil euros e é muito complicado arranjar esse dinheiro, principalmente no início, em que não há resultados para apresentar.

AD – Sente que a força do corpo está na força da mente?

LC – Eu sou uma das provas de que isso é verdade.

No ano passado comecei a fazer treino mental. Apareceu uma empresa, a Hypno Coaching, que me fez uma proposta nesse sentido e fiquei a pensar que aquilo me cheirava a bruxedo (risos). Fiquei reticente… Mas cedo percebi que realmente há mecanismos que nos ajudam a atingir objetivos e o treino mental ajuda-me a não fraquejar, porque às vezes só a boa forma física não chega.

Numa altura de sofrimento extremo, num sprint em final de prova, a capacidade mental pode fazer toda a diferença. E este é um trunfo importante não só em provas mas também nos treinos diários. Quando vou para a Serra de Monchique muitas das vezes está a chover ou está um frio de rachar e no verão as temperaturas quase atingem os 40 graus. Se não estiver na cabeça a capacidade de ultrapassar esta dificuldade, certamente não se conseguem os melhores resultados.


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