Carlos Juliano: "Acreditamos que podemos fazer algo importante na Final Eight"

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Carlos Juliano: “Acreditamos que podemos fazer algo importante na Final Eight”

Carlos Juliano: “Acreditamos que podemos fazer algo importante na Final Eight”

O Farense entra em campo esta quinta-feira, a partir das 14.30 horas, para um dos jogos mais importantes da sua história na modalidade de futsal. Os ‘leões de Faro’ enfrentam o GD Fabril nos ‘quartos’ da Taça de Portugal, no segundo jogo da Final Eight, a fase final – disputada no Pavilhão Multiusos de Gondomar até domingo – que reúne as oito melhores equipas da competição, sendo o conjunto de Faro o único representante da 2ª divisão.

Esta é, de resto, a melhor participação de sempre de uma equipa algarvia na prova. A formação que venceu isolada a Série F – com o melhor ataque e a melhor defesa -,  que terminou a fase de subida ao principal escalão do futsal português no terceiro lugar e que já garantiu a presença na final da Taça do Algarve – onde vai tentar revalidar o título frente ao Albufeira FC -, procura continuar a surpreender, depois de já ter eliminado Leões de Porto Salvo (3-1) e Belenenses (4-2) nas rondas anteriores.

O plantel do Farense, cem por cento algarvio, é comandado por Carlos Juliano, natural de Faro, que, aos 46 anos, cumpre a quinta época à frente do grupo. Treinador há 14 anos, Carlos Juliano foi jogador da casa entre 1998 e 2000, antes de fundar o  São Pedro Futsal Clube de Faro, em 2003. Hoje vive a melhor fase da carreira e confessa-se “orgulhoso” mas espera não ficar por aqui.

Algarve Desporto (AD) – O Farense é o primeiro clube do Algarve a chegar a esta fase da Taça de Portugal. Enquanto treinador, qual é a sensação de conseguir esse feito?

Carlos Juliano (CJ) – A sensação é boa, principalmente porque tenho a noção das limitações que temos e das quais a maioria das pessoas não faz ideia. Das cerca de 70 equipas da 2ª divisão que participaram na Taça de Portugal, haverá poucas com menos condições do que as que temos ao nível do que damos aos treinadores e aos jogadores, e fomos a única que chegou a esta fase.

Todos os nossos jogadores vivem no concelho de Faro e tenho a certeza que não há outra equipa com esta característica. Eles estão bastante excitados e ansiosos para que chegue o momento. O sorteio foi, teoricamente, favorável, uma vez que não calhámos com o Sporting, o Benfica ou o Braga, que são as três equipas mais difíceis. Vamos jogar com uma equipa que no ano passado foi campeã na nossa Série, temos algumas hipóteses. Claro que o Fabril é favorito mas o Belenenses e o Leões de Porto Salvo também eram e perderam, portanto vamos ver o que conseguimos fazer.

“Com esta equipa tudo é possível”

AD – Que antevisão faz desta Final Eight?

CJ – Se passarmos o Fabril evitamos Benfica e Sporting e jogamos com Braga ou Modicus nas meias-finais. Existe um grande desnível no futsal português entre as duas equipas de Lisboa, num patamar superior, o Braga e talvez o Modicus e o Fundão, num segundo patamar, e todas as outras equipas, onde se inclui o Fabril, que lutam para não descer na 1ª divisão. É lógico que estamos num patamar inferior mas sabemos que com esta equipa tudo é possível, inclusive chegar à final.

O mais normal é chegarmos, jogarmos na quinta-feira e virmos embora. Mas também teria sido normal acabarmos quando há quatro anos estávamos na 3ª divisão e subimos mas descemos automaticamente por não termos formação e não acabámos. Portanto, neste caso, acreditamos que podemos fazer algo importante na Final Eight, mais do que apenas participar.

Carlos Juliano: "Acreditamos que podemos fazer algo importante na Final Eight"

Carlos Juliano

AD – O Farense já eliminou duas equipas da 1ª divisão e se passar às meias-finais sabe que evita os dois “grandes”. Quais são as expectativas?

CJ – Tenho a plena consciência de que as outras equipas têm mais meios do que nós. Os nossos jogadores, por exemplo, tiveram que pedir dispensa no trabalho. As outras equipas também têm os seus problemas mas talvez não tenham tantos como nós. Mas as expectativas são de que, pelo menos, o primeiro jogo será bastante disputado e não será fácil para o Fabril derrotar-nos, estou convencido disso.

Caso passemos, o segundo jogo já dependerá de eventuais castigos ou lesões que possam surgir, uma vez que não temos uma profundidade assim tão grande no plantel e no futsal um ou dois jogadores fazem muita diferença. Precisamos de ter um bocadinho de sorte mas vamos lá para tentar ir à meia-final, pelo menos.

AD – Chegar à Final Eight era um objetivo desde o início da época?

CJ – Sim. No ano passado ficámos perto, fomos eliminados nos dezasseis-avos de final por um golo de diferença, e por isso logo no início desta época disse que um dos objetivos claros para nós era chegar à Final Eight da Taça de Portugal. Sabia que tínhamos capacidade para isso. Era mais fácil chegar até lá, por serem jogos a eliminar, do que subirmos à 1ª divisão, que implica regularidade numa competição em que sei de antemão que haverão momentos em que não tenho toda a equipa disponível.

AD – Esta será uma experiência única, para já, para o clube e sobretudo para os jogadores…

“Não há bons treinadores sem grandes jogadores”

AD – O plantel é totalmente amador mas provou ao longo da época que é capaz de vencer qualquer jogo. Qual é a essência desta equipa?

CJ – A essência desta equipa é, em primeiro lugar, a qualidade e o carácter dos próprios jogadores. Isso é o principal: não há bons treinadores sem grandes jogadores. Em segundo, é a intensidade, a qualidade e a exigência com que treinamos. É lógico que muitas vezes gostava de ser ainda mais exigente mas por vezes tenho de resfriar um bocadinho e tentar compreender que do outro lado estão pessoas que estiveram todo o dia a trabalhar, que não é a mesma coisa do que estar com jogadores que estiveram o dia todo a descansar no hotel ou em casa e que vão fazer o treino do dia para depois irem descansar outra vez. Acho que é nesse ‘mix’ que existe de exigência e compromisso, mas simultaneamente de compreensão e flexibilidade, que está o segredo da nossa equipa.

Se virem um jogo nosso sabem que não há ninguém a dar pontapés em garrafas depois de ser substituído, por exemplo. Tivemos apenas uma expulsão, por falta e acumulação de amarelos, ao longo do campeonato.

AD – Todo o plantel é natural de Faro ou reside no concelho. Esse também é um fator determinante?

CJ – Tenho a certeza. Todos eles dão mais um bocadinho de si por causa disso e demonstram sempre atitude. É um fator que nos diferencia, para além de trazer mais público ao nosso pavilhão, família inclusive. É mais fácil gerir a equipa diariamente, treino a treino, jogo a jogo, quando é toda daqui. E sendo toda daqui, existe um elo maior que a liga, pois muitos dos atletas jogam juntos desde miúdos.

“Muitas equipas perdem a bola e dão um passo atrás. Nós quando perdemos a bola damos um passo à frente”

AD – Dentro de campo, que pontos fortes destaca na equipa?

AD – A equipa teve momentos menos bons ao longo do campeonato, nomeadamente uma série de três jogos sem vencer e a derrota caseira com o Reguilas de Tires, mas no final terminou com seis vitórias consecutivas, ou seja, teve capacidade de superação. Qual é o papel do treinador nessas alturas?

CJ – O meu papel é importante mas o mais importante é o dos jogadores e eles sabem que são bons e que treinam bem. Foi difícil mas estamos preparados. E com os apoios necessários conseguimos dar continuidade a este trabalho e acredito que para o ano estaremos mais preparados para atacar a subida à 1ª divisão do que o que estávamos este ano. Temos de manter 95% do plantel, reforçar a equipa com mais um ou dois jogadores e tentar para o ano a subida com mais condições, evitando aquilo que aconteceu este ano, de chegarmos aos jogos decisivos e não termos os jogadores todos.

No entanto, nós estamos habituados às dificuldades, não nos queixamos. O nosso lema é: “Não há desculpas”. Também foi o nosso primeiro ano na fase de subida, seguramente que cometi erros que não vou voltar a cometer.

AD – Como é que o Carlos se caracteriza enquanto treinador?

CJ – Exigente e disciplinador mas ao mesmo tempo flexível. Porque acho que se não for assim, a este nível, não se conseguem fazer as coisas.

AD – Seria um sonho conquistar a Taça de Portugal?

CJ – A Taça de Portugal é completamente impossível. Ganhar ao Sporting ou ao Benfica é impossível. Difícil mas possível é ganhar ao Fabril.


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